Tito Guarniere: “Goebbels vive!”


Tito Guarniere
Goebbels vive!

O que anda mal sempre pode ficar pior. Esse episódio do Secretário Especial da Cultura, Roberto Alvim, escancarou a infinita capacidade do governo de dar mancadas, de ofender o senso comum, de causar escândalos e de consternar até o mais pacato e distraído espectador.

De onde, de que canto escuro da República, de que fundo da cartola Bolsonaro foi tirar um personagem tão destituído de noção? Ou a noção era essa mesma, sinistra, de refazer aos poucos, no trópico Sul, tal como um Goebbels redivivo, o rastro de sangue, a grandeza trágica do nacional-socialismo?

Bolsonaro, alertado do discurso de Alvim, feito com ar solene e triunfalista, ambientado em cenário cafona e sombrio – como no nazismo – ainda bancou, por algumas horas, a indicação desastrada. Se Alvim queria ser Goebbels, então o Führer era ele, o presidente. Sentindo o cheiro de queimado, puxou o tapete de Alvim – um nome singelo, um diminutivo quase infantil para um sujeito tão ameaçador.

Um incidente sem maior consequência, dirão jornalistas como Guzzo, Augusto Nunes e Alexandre Garcia, que nunca se cansam de defender o governo. O presidente botou de imediato o patriota no olho na rua: excedeu-se no patriotismo. Foi rápido, como era recomendável diante da chiadeira geral, inclusive dos aliados. Mas não elide a responsabilidade de Bolsonaro e do seu governo.

E não só porque é da atribuição do presidente a escolha e nomeação dos seus principais auxiliares. Por aí, a culpa já estava em cartório. A ABIN, a Casa Civil não existem para fazer um crivo geral, uma seleção prévia, que proteja o governo de fiascos da espécie?

Mas não é disso que se trata. Do modo como se comporta o governo, o presidente Bolsonaro à frente, é mais do que provável que Alvim tenha sido escolhido exatamente pelo que ele diz, faz e personifica. Alvim é da casa, fala o mesmo idioma, usa a mesma linguagem, desfralda as mesmas bandeiras. Por que não nomeá-lo?

Ninguém no governo, no staff presidencial, e menos ainda o presidente, lhe teria advertido, no sentido de que se conduzisse com prudência, moderação e cuidado com o que diz. Foi nomeado e escolhido exatamente pelo que pensava e dizia.

Claro, ninguém podia imaginar que Alvim, mesmo pertencendo aos quadros da extrema-direita (“Ninguém odeia mais a esquerda do que eu”, gabou-se) iria ao ponto de citar Goebbels, em um dos seus mais conhecidos discursos, defendendo uma cultura “heroica”, “nacional”, “imperativa”, e “envolvente emocionalmente”. É possível ser mais nazi do que isso?

Alvim teve o cuidado de não citar nominalmente o ideólogo da cultura nazista. Talvez lhe tenham – como ele insinua – entregue o discurso pronto e ele não tenha notado a colagem, o plágio quase literal de sua fala. Mas é daquela forma que ele vê a cultura, que ele se vê e se pensa. Ao fundo quase se podem ouvir os acordes dramaticamente densos, grandiloquentes, das obras de Richard Wagner, o compositor do Reich.

De Roberto Alvim o governo está livre. O que o governo não tem como fazer é livrar-se de si próprio.

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