Agentes do Consultório na Rua se dizem vítimas de perseguição política

Projeto atende moradores em situação de rua em Canoas. Foto: Bruno Lara/OT.
Projeto atende moradores em situação de rua em Canoas. Foto: Bruno Lara/OT.

As fotos mostram salas minúsculas alagadas, com cadeiras velhas, armários vítimas da erosão da água que entra a cada chuva, medicamentos e suplementos expostos em caixas de papelão sobre os móveis e até no chão. Essa foi a forma com que os agentes do Consultório na Rua acharam para expor, através da rede social Facebook, a situação precária de trabalho.

Em 2014 o movimento Consultório na Rua foi tido como inovador pela imprensa por se tratar de uma parceria inédita entre a administração municipal, o Estado e a União, com equipe composta por uma psicóloga, uma assistente social, dois agentes sociais, uma enfermeira e uma técnica em enfermagem que, nas ruas de Canoas, atendiam as 86 pessoas em situação de rua até então cadastradas pela Prefeitura. Até abril de 2015, mais de 500 abordagens eram registradas.

Mas parece que o encanto com o projeto acabou. Agentes reclamam que foram vítimas de uma perseguição política por terem realizado uma manifestação, mesmo que previamente autorizada em convenção pela categoria, no início de julho deste ano. “O serviço de Consultório na Rua foi desmontado por perseguições políticas praticadas pelo prefeito Jairo Jorge, sua Fundação de Saúde (assediadora) e seus secretários”, acusou Veridiana Machado, uma das agentes ligadas ao Grupo Mãe de Deus, que foi desligada da iniciativa com o argumento de que haverá uma “reestruturação na equipe”.

 

Objetivo

Para os envolvidos, se trata de um serviço do Sistema Único de Saúde (SUS) que tem como o principal objetivo estender àqueles que não possuem um local para morar. “Se ocupa do cuidado às pessoas que fazem uso problemático de álcool e de outras drogas, em liberdade, no território, a partir do respeito e do desenvolvimento de vínculo de confiança entre profissionais e pessoas atendidas, esta, a parte mais importante do processo de cuidado e de acompanhamento realizados”, aponta Machado.

Nas ruas, questões de saúde coletiva são tratadas de um modo geral, prevenindo a disseminação e facilitando o tratamento de tuberculose, acompanhando o tratamento e incidindo na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis como sífilis e HIV\AIDS, além de realizar diversos testes.

 

Sem viatura

Logo no início, relata, a equipe teve dificuldades para sair a campo e mapear o território. “Não conseguia obter os uniformes e nem o adesivo do carro, uma camioneta Doblô, recursos esses fundamentais para a identificação da equipe pelas pessoas atendidas e pela comunidade em geral, que, inclusive, é fator importante na relação até com a dinâmica do tráfico, inerente a todas as cidades atualmente”, revela. Mesmo assim, foram às ruas.

“Os trabalhadores só receberam uniformes e adesivos no carro, quando o prefeito Jairo Jorge resolveu inaugurar o serviço com mídia e propaganda. A camioneta Doblô, é um veículo pequeno, que sempre foi de tamanho insuficiente à equipe, que tinha que se dividir e deixar metade das pessoas quando era preciso transportar alguém para atendimento médico ou de outra ordem. Ao mesmo tempo, no estacionamento onde ficava a Doblô, existiam vários veículos como aqueles de SAMU, apodrecendo, abandonados na garagem. Um deles poderia ser adaptado para o Consultório na Rua, a fim de dar mais conforto às pessoas atendidas e qualificar o trabalho da equipe”, revela Veridiana.

 

Sem telefone

Segundo ela, a estrutura “nunca teve um telefone próprio. Os trabalhadores ou tinham que usar os seus próprios ou o da Unidade Básica de Saúde onde dividiam o espaço. Aliás, a única sala que o serviço de consultório na rua tem nessa UBS, é uma sala sem janelas, pequena, extremamente insalubre e que quando chove alaga”, denuncia.

 

Sem insumos

Conforme informaram os denunciantes, os insumos são precários. “Quando existem, pois, o serviço fica muito tempo sem o quite com bolachas, barras de cereais e água para oferecer às pessoas que, muitas vezes, ficam por diversas horas em jejum a fim de realizarem exames, ficam nessa sala úmida. Assim como, as medicações, os documentos, comprometendo os mesmos. Não existe uma continuidade no fornecimento desses itens pelo município”, revelam.

 

O que diz a Prefeitura

A Secretaria Municipal da Saúde​ (SMS)​​ informou que o projeto está de “acordo com a política federal.​ ​O que ocorreu, de forma gradual, ​foi ​a reestruturação da equipe, não sendo aceitável a alegação de perseguição política”. Segundo o órgão, atualmente, ​a secretaria da saúde “recebe ​R$ ​27 mil ao mês da União, o que representa uma parte do custo do consultório. ​Os custos com essa equipe são superiores a R$ 40 mil mensais”.

Sobre o veículo, afirmou que as ambulâncias “não têm nada a ver com o Consultório de Rua, pois a equipe do Consultório nunca ficou sem veículo e as ambulâncias são usadas para outros propósitos”. Hoje, o município dispõe de oito ambulâncias.

Sobre a sede, respondeu que a “equipe utiliza ​a área física da UBS Santa Isabel​, que oferece as condições necessárias​ para o exercício do trabalho. No entanto, em virtude da forte chuva forte do início do ano​, ocorreram ​problemas no telhado e o computado​r foi danificado. ​Depois do conserto, não houve mais problemas”.

A secretaria diz que “não recebeu registro da falta de insumos ​​para a equipe e cabe destacar que estes profissionais não coordenam a equipe e​, ​portanto, não a representam”.

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