Opinião: Esse e outros carnavais

si2

Meus amigos e eu nos vemos preocupados com as mudanças climáticas, as enchentes e os desabrigados por ela, miséria em inúmeros aspectos colonizando tantos lugares antes aparentemente seguros. Éramos jovens demais para entender que a humanidade está afundando dentro de nosso “pote de ouro cheio de sucrilhos”. A ficha caiu e nossa esperança com os novos tempos vai indo junto, apesar de muito ativismo.

Uma tempestade nos pegou de surpresa e devastou Porto Alegre uma semana antes do feriadão. Na mesma semana, Canoas estava debaixo d’água. Mas não é só isto.

Eu poderia usar aquela velha frase musicada “então é natal…”, ou qualquer outra que justificasse uma amnésia providencial e a farra desenfreada, a pouca vergonha nos longos recessos no congresso e demais âmbitos da política. Afinal, gente… é carnaval e tudo deve parar, afinal, o pobre tem que se divertir um pouco, os ricos já fazem isso o ano inteiro.

Li um artigo que dizia que as datas festivas no Brasil salvam o povo de literalmente enlouquecer e eu gostaria de dizer que não somente endosso como estendo a demais países mal governados como o nosso.

Ter prazer em levantar todos os dias e ir para o seu trabalho é um luxo que apenas 10% da população tem. Quem teve o azar de não ter pais ricos sua, literalmente, diariamente, desde que nasceu. Mas sempre haverá aquela pessoa que “se safou” de ser um bandido, ou de ficar apenas reclamando da rotina, que servirá de bom exemplo para a classe média de como é possível ser honesto e feliz com pouco. “Viu, é só se esforçar! Ah! Você, da periferia, trabalhe o ano todo para construir nossas fantasias, ensaiar na bateria da escola de samba e fazer do desfile na Sapucaí o maior evento de carnaval do mundo. Mas você não poderá levar sua família para lhe assistir, pois esse evento é para os ricos, ok?”.

Falam por aí que é fácil se tornar alguém de bem e fico questionando que tipo de conceito a classe dominante (a burguesia) tem a respeito da corrupção. Eu fico buscando respostas para essa espécie de razão que inverte tudo e não é capaz de ter empatia.

Este ano nossa Capital não teve blocos de rua. Ficou estranho o bairro boêmio da cidade quase vazio, num constrangedor silêncio, um luto por tudo de ruim que vem acontecendo com o planeta, com a falta de segurança nas ruas, com a roubalheira, com tantas mentiras, vírus e desamor.

Em momentos marcantes do calendário e de euforia coletiva, eu costumo mergulhar em mim para decifrar que felicidade é esta que eu “deveria” sentir, mas que sempre dá espaço à frustração por tamanha desigualdade e à triste realidade de que de fato não temos o que comemorar. Eu ando só com os meus pensamentos. Me resta o silêncio e a reflexão.

Esses desfiles aí que mostram na televisão é show ensaiado, embalado pelo capital e para poucos. É bonito e distrai. Mas festa mesmo é coisa bem diferente.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here