Tito Guarniere: “Não por falta de aviso, estamos agora na casa fatídica de 300 mil”

Tito Guarniere

300 MIL 

Um pouco por otimismo, nos primeiros meses de 2020, jamais imaginei que poderíamos chegar aos 10 mil mortos pela covid-19. Chegou aos 100, aos 200 e estamos agora na casa fatídica de 300 mil. 

E não foi por falta de aviso. O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, com pouco mais de uma centena de brasileiros mortos de covid-19, perguntou a Bolsonaro se ele estava preparado para ver na televisão os caminhões do Exército transportando corpos das vítimas pelas ruas. Médicos, epidemiologistas, infectologistas, diante dos fatos a que assistiam horrorizados, e diante das projeções possíveis da calamidade, gastaram a voz para advertir sobre o impacto da pandemia nas estruturas de saúde do país, na economia, na vida dos brasileiros. 

Na outra ponta, Bolsonaro, que vai levar folgado o título de pior governante que este país já teve, debochava da doença, e sabotava dia sim e outro também qualquer ação de combate contra a pandemia que não fosse o uso da cloroquina, condenando o distanciamento social e o uso das máscaras de proteção facial. Adiante, voltou as baterias contra a vacina Coronavac, porque tinha origem na China e porque estava sendo desenvolvida pelo Instituto Butantã, de São Paulo, governado por João Doria, um inimigo político.

Agora, tendo chegado à estatística macabra de 300 mil mortos, está na defensiva: os aliados do Centrão, temerosos do que pode acontecer nos próximos meses, na voz do presidente da Câmara Arthur Lira dizem que “tudo tem limite”. Empresários, ex-ministros, economistas de escol, em manifestação vigorosa da sociedade civil, desmantelaram a escolha falaciosa de Bolsonaro entre os ditames da saúde e as necessidades da economia. Acossado, o presidente sai pela via comum do improviso, criando uma comissão para coordenar as ações contra a doença.

Mais do que isso, agora se entrega com sofreguidão ao elogio da vacina, transformada em grande solução, e com o tom triunfalista, dá a entender que nunca faltou empenho do seu governo para trazê-la o quanto antes para o Brasil. 

O comitê de coordenação, um apelo que ecoou em várias instâncias desde o início da pandemia, e que foi sempre desprezado pelo governo central, contou com a presença e participação de quem nada tem a fazer ali, como o STF e a Procuradoria Geral da República, e com ausências injustificáveis, uma vez que deixou de fora prefeitos, secretários estaduais de saúde, e governadores importantes, como os do Rio Grande do Sul e São Paulo, que não bebem água na mesma fonte de Bolsonaro. 

Trata-se (o comitê) de uma ação entre amigos, uma confraria de coleguinhas, uma panelinha de personagens menores, uma ação oportunista e mal ajambrada, da qual não sairá nenhuma solução. 

Tudo ainda ficou mais ridículo, mais patético, quando o governador João Doria, de São Paulo, anunciou a fabricação de uma vacina brasileira anti-covid pelo Instituto Butantã. No mesmo dia, o ministro Marcos Pontes, da Ciência e Tecnologia – personagem sem brilho – foi chamado às pressas para anunciar que São Paulo não está sozinho, o governo Bolsonaro está no páreo e também tem sua vacina. O governo não se cansa de dar vexame. 

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