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20/05/2024
 

Opinião

Editorial: “Esse é um dos momentos mais importantes da sociedade brasileira”

Redação

Publicado

em

Editorial jornal O Timoneiro

Participação popular

Esse é um dos momentos mais importantes da sociedade brasileira. A crise do coronavírus criou uma nova realidade, que todos temos necessidade de adaptar nas nossas vidas.

Estamos vivendo um período na sociedade que ninguém tem posição definida e nem definitiva, é indispensável a participação de todos. Não se pode atrever, nem exigir que os governos municipais, estaduais, e/ou federais sejam os únicos responsáveis para enfrentar as crises econômicas ou de saúde pessoal e coletiva.

Vamos incentivar a participação para que todos possam ter a compreensão, o respeito e participação pelas novas decisões, sejam elas de naturezas econômicas, sociais, ou de saúde.

A participação de todos vai ensejar o Brasil a vencer as dificuldades e criar novas condições para nossos filhos e netos.

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ENCHENTE RS

Para dar notícias de como andam as coisas no RS (por Plínio José Borges Mósca)

Redação

Publicado

em

Plínio José Borges Mósca – professor e diretor de teatro, membro do Colegiado Setorial de Teatro do Estado do Rio Grande do Sul, Tecnólogo da Produção Cênica pela Faculdade Monteiro Lobato, Mestre em Memória Social e Bens Culturais pela Universidade La Salle e Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras da República Francesa.

Amigas e amigos: O RS ainda está longe de dizer que desastre ambiental passou.

As pessoas flageladas e os animais desamparados continuarão ainda por muitos meses nos abrigos criados para as vítimas do desastre ambiental. Muitas cidades ainda estão debaixo d’água, bairros inteiros desapareceram e certamente o número de mortos é maior do que este de 170 pessoas que o Estado afirma.

Porto Alegre por ser a maior cidade do estado e sua capital, é claro que virou a vitrine principal da catástrofe. O Centro da cidade continua alagado, repartições públicas, agências bancárias, fosso de elevadores, fosso de escadas rolantes, garagens subterraneas, praças, restaurantes, hospitais, hotéis, quartéis, shoppings, igrejas e sobretudo milhares de edifícios com moradores, foram alagados. Água e lama no térreo, no primeiro andar e não raramente no segundo andar.

Está evidente a falência da administração pública em vários aspectos. Há anos não se fazia reparações e manutenção nas comportas e nos diques que controlavam as cheias do Rio Guaíba e suas invasões de água na cidade. Algumas roldanas e dobradiças e trilhos de correr as engrenagens das comportas, esfarelaram-se quando foram usadas.

As Casas de Bombeamento, com dupla finalidade: abastecer as estações de tratamento de água para a distribuição de água nos bairros e fazer o retorno do excesso de água para dentro do próprio Rio Guaíba, não funcionaram. Várias com os motores elétricos estragados há 10, 12 ou 15 anos. Várias com vazamentos nas suas paredes, acabaram por ficar completamente submersas. Várias que estavam em locais mais altos, não estavam com seus painéis de controle funcionando.

Os bairros foram ficando sem água tratada que entrava nas caixas d’água e as ruas foram se alagando de água e lama direta do Rio Guaíba.

Tem em Porto Alegre um bairro chamado Menino Deus, cuja avenida principal, Avenida Getúlio Vargas. é comprida e larga, tem um jacaré solto, indo de um lado para outro, funcionários do Jardim Zoológico ainda não conseguiram capturá-lo. Já foi até batizado: Lacoste.

Com o excesso de água do Rio Guaíba e com o excesso de chuvas, muitos bairros ficaram sem energia elétrica ou com energia elétrica intermitente. Tem pedaços da cidade há 15 dias sem luz. As enxurradas, a falta de água potável, os alagamentos e a falta de energia elétrica, aconteceram e ainda estão acontecendo no dia de hoje, em mais de 30 bairros da cidade de Porto Alegre.

O número de pessoas atingidas e prejudicadas por este estado de coisas é de aproximadamente 500 mil pessoas.

Alguns municípios do Estado, como a cidade de Passo Fundo, mesmo com todas as adversidades presentes está realizando o seu calendário profissional cultural, para não deixar seus fazedores de Cultura do município à míngua. “Sirvam suas façanhas de modelo à toda terra”.

O número de comerciantes, empresários, pequenos e médios e até mesmo de grande porte, ultrapassa na capital dos gaúchos a casa de 10.000 empresários severamente prejudicados.

Quase tão grave quanto a enchente e as enxurradas, são os crimes de roubo, furto e depredação que os empresários estão enfrentando neste momento. Precisam de segurança e de estabilidade.

Mais sinistro que as enxurradas, o alagamento das ruas, bairros e cidades e as mortes de pessoas e de animais domésticos, mais horrível que o número de desaparecidos e de desabrigados, é a quantidade de FAKE NEWS plantadas pelos componentes do gabinete do ódio, um conjunto de tentativas nas quais os crimes e a ignorância são misturados com o intuito de tirar proveito político ideológico partidário, neste momento de luto pelos falecidos e de empenho pela vida e do salvamento.

É imoral e indecente que se tente atrapalhar o que está sendo feito em prol dos desassistidos. Sabe-se que muitas das injúrias e difamações têm inclusive seu nascedor justamente nas mãos de muitos culpados pelo crime de negacionismo ambiental e burramente acreditam que mudando o foco do olhar das pessoas, seus crimes não serão mais lembrados.

O leque dos prejuízos é largo: vai desde a borracharia da esquina, passa por um shopping inteiro e vai até uma companhia de carros forte de transportar dinheiro, que estão todos debaixo d’água.

Quase todas as minhas atividades profissionais estão canceladas “sine die”. Meu bairro, Petrópolis, foi muito pouco machucado por tantas tristezas, tivemos sim muitas panes de eletricidade, a queima de vários aparelhos eletrodomésticos e eletrônicos, 8 dias sem água nas torneiras, a necessidade de buscar num estabelecimento vizinho, um lava-jato, que diariamente gentilmente doava 2 baldes d’água por apartamento, a chatice de subir com os baldes na escada apenas iluminada pela luz de emergência, que diga-se de passagem, são fracas.

Porto Alegre está sem Estação Rodoviária, sem aeroporto, sem Mercado Público Central, sem o metrô de superfície que vai desde o Mercado Público da capital do estado até o município de Novo Hamburgo. Está rareando o dinheiro nos caixas automáticos de bancos e de postos de combustível, está rareando a distribuição de gás nos edifícios, os caminhões pipas com água bruta para abastecimento das caixas d’água dos prédios, hospitais, asilos, creches, abrigos de flagelados, quartéis, lavagem das ruas, mais do que triplicou de preço e todo este estado de tristeza/desolação/prejuízo financeiro, vai demorar bastante tempo ainda.

Por volta de 6 meses podendo chegar até 10 meses em cidades como Canoas, talvez, proporcionalmente a cidade mais vitimizada no RS inteiro, que está com 150 mil pessoas realmente sem seus lares.

Muitos bairros na capital do estado e muitas cidades do interior precisarão ser removidas de onde estavam. São pedaços da cidade que já se sabe que sempre estarão sujeitos às enxurradas e aos alagamentos. Tentar levá-los de volta para aqueles lugares é sinônimo de alimentar a indústria do acidente ecológico, da enchente e das tempestades.

O número de abrigos para pessoas e seus animais domésticos é enorme e a quantidade de abrigos cada vez aumenta mais.

O número de pessoas que colocou-se como voluntários é gigantesco. Mais impressionante ainda é ver pessoas que estão saindo de outros lugares do Brasil, gastando com suas passagens e suas demais despesas para vir até o RS para pegar no pesado, molhar-se, arriscar-se e isso tudo para salvar vidas humanas e de animais domésticos, resgatar pessoas que estão em perigo de morte, oferecer seu tempo, ombro amigo e solidariedade. Até do estrangeiro estão vindo voluntários para por a mão na lama, na água fria e nos flagelados.

Nunca na história do país, exceto no período da II Guerra Mundial, as Forças Armadas do Brasil são tão queridas, admiradas e incentivadas pela população civil (da maioria dos matizes ideológicos) como agora. Nunca mais se deixará de olhar com sorriso e gratidão para o Corpo de Bombeiros Militares do RS e a Defesa Civil do RS.

Tivemos problemas de segurança dentro de alojamento, um crime de estupro e crimes de abuso sexual contra meninos adolescentes.

Tem flagelado tarado, flagelado alcoolátra, flagelado doente. Na hora de fazer o salvamento não dá pra fazer separações por categorias ou pelo dimensão de seus caráteres. Foi prudente a decisão do governador do RS, Eduardo Leite, de colocar segurança pública dentro dos abrigos dos resgatados.

O crime de negacionismo ambiental está evidentemente relacionado com esta tragédia, uma das maiores do Brasil e certamente a maior do RS.

Há vários programas de assistência social, de amparo financeiro para as vítimas do desastre provocado pelo crime de negacionismo ambiental, programas de amparo que estão sendo oferecidos pelos municípios, pelo Estado e pela União. Bilhões estão sendo liberados pelo governo federal, milhões estão sendo alocados pelo governo estadual e pelas prefeituras.
Se muitos municípios e se o Estado tivessem investido mais em prevenção e manutenção, da mesma forma que nós humanos temos que de vez em quando fazer o nosso “check-up” , a realidade seria menos desgraçada.

No meio de toda essa realidade com sua tristeza que será crescente, me sinto um sujeito privilegiado. Estou na minha casa, seco, agora com água nas torneiras, com luz o tempo todo, agora com Internet e até televisão, com minha cachorra, tenho comida em casa e todos os remédios que preciso tomar todos os dias.

Que o destino, que o Altíssimo, que nossos mestres e guias, que nosso empenho individual, que nossa garra coletiva nos amparem e nos protejam hoje e sempre.

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Opinião

“Mathias Velho: o bairro que cresci no epicentro do fim do mundo” (por Fernanda Nascimento)

Redação

Publicado

em

Por Fernanda Nascimento – Jornalista canoense

Escrever sobre a histórica tragédia do Rio Grande do Sul e a maior catástrofe climática do Brasil talvez seja uma tarefa mais simples para quem, como eu, nasceu e cresceu no bairro que é o epicentro do fim do mundo. Não tenho certeza se consigo descrever o que vejo e o que sinto. Tampouco imagino que quem não esteja aqui consiga sentir tudo isso. Nessa tentativa de tradução, talvez o que eu esteja fazendo seja compreender o inexplicável presente.

Nasci em Canoas e até os 23 anos morei na casa dos meus pais, na Mathias Velho. No terreno que hoje está debaixo d’água eles criaram cinco filhos. Seu Nilson e Dona Rejane se conheceram por lá mesmo e seis quilômetros separam a casa em que vivem da Entrada da
Mathias – aquele começo do bairro onde as pessoas resgatadas por barcos chegaram a partir de 4 de maio.

Minha avó materna era uma das moradoras mais antigas do bairro. Negra e vinda de São Luiz Gonzaga, na região das missões, a dona Geni lutava com as forças que possuía para criar os sete filhos. Dona Ilda, minha avó paterna, também morou na mesma rua. E a São
Borja, hoje alagada, é o endereço em que moram ou moraram muitos tios e primos, parentes por parte de pai ou mãe.

Arquivo pessoal

Enchentes dos anos 60

A enchente de 1941 é a tragédia climática de referência para os gaúchos. Há mais de 70 anos o nível que o Guaíba chegou naquela oportunidade, 4,76m, era utilizado como uma referência triste. Mas, em Canoas, no imaginário dos moradores as piores lembranças são
as enchentes dos anos 1960, especialmente a de 1967. Compreendo isso como fruto da ocupação tardia do bairro. Meu pai viveu as enchentes dos anos 1960 e isso quase foi motivo de uma tragédia ainda maior em 2024.

Com quase 80 anos, ele conta histórias sobre como a região em que mora, mesmo distante do início do bairro, é mais alta, um resultado da topografia irregular da região. Histórias sobre como, aos 20 anos, andou com água na altura do peito em alguns locais e na nossa
rua podia caminhar. Ele tinha certeza que estava seguro lá e relutou em sair de casa, mesmo com o alerta de evacuação na região. No primeiro dia da enchente, as imagens e vídeos que vimos dos vizinhos que ficaram por lá mostravam a água na altura das janelas
da casa.

Assim como o pai, outros milhares de moradores também não acreditaram na força das águas. E, mesmo para quem acreditou desde o princípio, o que vimos e o que estamos vivendo é inimaginável. A verdade é que, mesmo acompanhando a tragédia que acontecia na Serra e no Vale do Taquari, e sabendo que as águas desceriam para o Rio dos Sinos, não tínhamos a menor ideia do que aconteceria.

Farol

Farol – Foto: Arquivo Pessoal

Nós perdemos o grande amigo da família: o Farol, cachorro do meu pai. Fui responsável por trazê-lo para casa e isso aconteceu de uma forma inusitada, que até hoje não sei explicar porque aconteceu. Nunca tivemos um cão e meus pais sempre
disseram que não queriam animais – uma opção após o trauma da perda de bichos que haviam morrido quando meus irmãos mais velhos ainda eram crianças.

Mas, em uma viagem para o Farol de Santa Marta, em Laguna, conheci o Farol. Um filhote recém nascido de uma ninhada de pequenos vira-latas. Trouxe. O cachorro viajou de ônibus, de balsa e em ônibus intermunicipal num percurso de mais de 8 horas. Com o adendo de que estava dentro de uma mochila. Não latiu em nenhum momento e chegou. Ganhou o nome do local de origem: Farol.

Meu pai, como a maioria das pessoas que acabam amando seus animais, inicialmente não queria o bicho. Pouco tempo depois, o Farol se transformou no cão mais mimado da rua, quiçá do bairro. Ele tinha 12 anos. Era o caramelo mais obeso que conhecemos, pesando
mais de 40kg.

No dia 3 de maio, foi dado o alerta de evacuação até a rua São Lourenço – uma rua antes dos meus pais. Meu pai não queria ir. Quando finalmente decidiu que sairia, o Farol resistiu em subir no carro. Quis morder meu pai e meus irmãos. Na hora da saída, em meio ao caos,
o pai decidiu que iria e deixaria muita comida e água para o Farol. Comida em todo o pátio. A chave de casa ficou com um vizinho – que ficaria por lá, pois tinha uma residência de dois andares e, como já disse, também não imaginava que a água pudesse chegar até ali.

Na manhã seguinte, em meio às notícias da enchente e do resgate, meu pai chorava abraçado em um urso de pelúcia. Quando liguei para ele, a primeira coisa que ele tentou falar, em meio a soluços, foi sobre o cachorro. E se nas primeiras horas os resgates eram todos destinados aos humanos, logo depois, percebemos a possibilidade de tentar buscar o Farol. Mais de cinco barcos foram até lá e não o encontraram – no último, um amigo da família foi até o fundo do terreno, espaço mais alto, e conseguiu resgatar a cachorra da minha prima. Mais jovem, a Bombom resistiu.

Na busca online pelas páginas que começaram a catalogar os animais resgatados e nos abrigos que se estendem por toda a parte não alagada de Canoas, tentamos encontrar o Farol. Meus irmãos percorreram vários locais. Minha irmã chegou a ir ao hospital veterinário
em busca de um cachorro que realmente parecia ele. Mas não era.

Assim que cheguei em Canoas também percorri abrigos e voltei arrasada por perceber a quantidade de animais bem cuidados, tristes, à espera de seus tutores. Somente em um dos sites online havia mais de 2.500 animais cadastrados. Nas palavras de um dos voluntários
do local: “chegam 20 cachorros por dia e saem dois”.

Uma tarde, vi meu pai sentado com o olhar triste. Sentei ao lado e ele me disse: “Não fico triste pela casa. Eu nunca tive nada nessa vida, mesmo. O que me dói é o meu cachorrinho”. Assim que a água começou a baixar conseguimos encontrar o corpo dele, em 17 de maio.
Meus pais choraram o choro preso há 15 dias. Desabamos.

Valos e diques

É engraçado como depois de uma tragédia as memórias são acionadas para coisas e situações do cotidiano que nos passam despercebidas. Canoas é repleta de diques – locais de contenção construídos para escoamento da água e que hoje têm sido questionados em sua eficácia. Na quadra da nossa casa, no fim da rua, sempre existiu o Dique da Curitiba, aquele mesmo que, mais para o fundo do bairro, estourou e por onde começou a enchente em toda a Mathias.

Há menos de 10 anos esse dique foi canalizado. Até então, o cheiro de podre por ali era frequente. Lembro de falar “fulano mora perto do dique”. Na rua do dique, uma rua de chão batido pavimentada somente em 2022, andávamos de bicicleta porque era mais tranquilo. Agora, na enchente, soube que o maior medo de infância da minha irmã era cair no dique.

Outra coisa muito comum quando não havia canalização eram os valos ou valas: o local por onde a água corria. Inclusive, havia um local no bairro passível de referenciação com a simples frase: “é perto do valão”. Na infância, o amigo imaginário do meu irmão mais novo se chamava Valo.

Abrigo voluntário

Com 60% da cidade atingida pela enchente, Canoas teve mais de 90 mil pessoas deslocadas de casa. Cerca de 20 mil precisaram ir para abrigos. As outras foram para casas de amigos, parentes e conhecidos. Quem anda pela parte seca enxerga as ruas e casas cheias de pessoas, carros e bichos. Desconheço quem não esteja na seguinte situação: desabrigado ou abrigando alguém.

Assim como meus pais, a maioria dos meus irmãos reside em Canoas. Com o alerta de evacuação e com a chegada das águas nos bairros Mathias Velho, Canoas, Harmonia e em parte do Centro, três deles precisaram sair de casa. Por sorte, há dois anos, um dos meus
irmãos comprou uma casa espaçosa do outro lado da cidade. E foi para lá que todo mundo se deslocou no dia 3. E é lá que permanecem.

O saldo da enchente na minha família é de três casas alagadas, um centro de treinamento embaixo d’água, uma clínica odontológica ilhada, uma loja de móveis e seu estoque submersos no bairro Navegantes, em Porto Alegre. Naquela casa, 15 pessoas foram diretamente atingidas pela enchente.

Mas, o saldo mais duro é pensar no que não volta. Minha mãe lembrou que perdeu os trabalhinhos de pré-escola de todos os filhos – alguns papéis com mais de 40 anos. Dona Rejane passa o dia inteiro envolvida em mil afazeres domésticos – e mesmo que a gente se antecipe e faça o que ela pretendia fazer, em uma tentativa vã de fazê-la descansar, a mãe vai lá e encontra algo novo para fazer. Uma hora ela me disse: “Minha filha, me deixa. Eu  preciso ocupar a minha cabeça para não enlouquecer”.

De volta para minha terra

Acompanhar de longe uma tragédia envolvendo a própria família é desolador. E eu demorei para conseguir me deslocar para Canoas já que, com todas as estradas bloqueadas, um deslocamento de 15km que era realizado em 25min ou 30min, se transformou em uma
viagem de 60km realizada em, no mínimo, 1h30min. E que pode demorar mais de 4h – situação que vivi no meu retorno.

Em Canoas, fiquei por dias tentando ajudar como podia. Comprei roupas quentes, roupas de cama, material de limpeza etc. Mas o que sinto é a dor porque meu sobrinho de 5 anos diz que quer voltar para casa e não pode. Um dia minha irmã me viu triste por não poder fazer tudo. Ela, que perdeu a casa, me olhou e disse: “Mana, tu não vai conseguir comprar um guarda-roupa inteiro para cada um da
família”. Impotência.

O que vem

Nesses dias de suspensão do espaço-tempo, vivemos em uma realidade de espera pela baixa dos rios e pelo retorno. Um retorno para limpar, mesmo sabendo que não encontraremos o mesmo lugar que deixamos, porque ele já não existe mais.


Texto enviado pela autora à redação do Grupo O Timoneiro

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Opinião

Artigo: ‘DEGRADAÇÃO!!!’ (por Carlos Marun – Ex-Ministro de Estado)

Redação

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Artigo: 'DEGRADAÇÃO!!!' (por Carlos Marun - Ex-Ministro de Estado)

DEGRADAÇÃO!!!

São cada vez mais frequentes nas redes sociais postagens feitas pelos próprios soldados israelenses de cenas por eles filmadas demonstrando profundo desrespeito e zombaria em relação aos palestinos. Há poucos dias a FOLHA postou matéria com o seguinte título: “Soldados de Israel gravam vídeos “brincando” com calcinhas de palestinas em GAZA”. A matéria destaca ainda que isto vem acontecendo há “seis meses”.

Há tempos venho afirmando que a falta de uma causa justa pela qual lutar tem enfraquecido moralmente as FFAA israelenses e que o resultado disto é também o enfraquecimento militar.

Quando lutavam pela existência de sua Pátria eram capazes de rápidas e espetaculares vitórias que surpreendiam o mundo. Agora, que lutam para que os palestinos não tenham a sua, estão há seis meses enfrentando combatentes famintos e mal armados e só conseguiram libertar 2 reféns. Além de estarem tendo que devolver diariamente as suas famílias cadáveres de seus militares abatidos pela resistência. Fora isto, estão oferecendo através das próprias câmaras de seus celulares imagens que chocam e constrangem o mundo…

A verdade é que só tem sido eficientes em lançar bombas de aviões, até porque em Gaza não existem armas anti-aéreas e porque o chão é difícil de errar. Ah, e porque Gaza é o enclave mais densamente povoado da face da Terra. Assim sendo, uma bomba praticamente onde quer que caia encontrará um ser palestino( especialmente mulheres e crianças) pronto para engordar as estatísticas de mortos que servem para que Nethaniahu continue enganando a população israelense com a falsa narrativa de que está vencendo este conflito.

É certo que naquela época não existiam celulares, mas não lembro de que coisa semelhante tenha acontecido quando as tropas israelenses eram comandadas por homens do quilate de Moshe Dayan ou Itzak Rabin, de quem se pode divergir, mas não se pode desrespeitar. O fato de o Comandante Supremo de Israel ser hoje o imoral Nethaniahu está transformando seus exércitos em focos de imoralidade e ineficiência e isto é grave também para o futuro daquela nação.

É certo que o Hamas foi criminoso ao utilizar o terrorismo como forma de luta em 07/10. Porém, para o bem também do próprio Israel urge que cesse este genocídio ilegal e imoral, que usa, além das bombas, a fome como arma de Guerra.

Nunca ninguém fez tanto mal a Israel quanto o próprio Nethsniahu está fazendo. Urge que os israelenses de boa vontade, que são muitos, se transformem em maioria e o demitam. A partir daí é que podem se estabelecer as condições para que em um diálogo com o que sobrou da ANP, com o mundo árabe e com as grandes potências se estabeleçam as condições para uma paz sólida na região. O que a meu ver passa pela existência de “Dois Estados” livres, viáveis e soberanos.

Carlos Marun
Advogado e Engenheiro
Ex-Ministro de Estado

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