Tito Guarniere: “A notícia de Moro no Ministério da Justiça caiu como uma bomba”


Tito Guarniere
Diálogos reveladores

No domingo passado, houve manifestações em mais de 70 cidades brasileiras. Desta vez, em apoio ao ex-juiz e atual titular do Ministério da Justiça Sérgio Moro, e para não perder a viagem, dar – em sentido figurado, é claro – uns cascudos no Supremo Tribunal Federal e alguns dos seus ministros. Diminuiu o ímpeto, mas de todo modo milhares de pessoas foram às ruas e praças do país. Se para mais não seja, certos personagens, certas famílias brasileiras encontraram nos protestos domingueiros, uma forma de entretenimento e um sentido para as suas vidas.

Não sei quem compareceu, e com franqueza, nenhum desses manifestantes está no círculo de minhas relações. Não tenho certeza se isso é bom para mim ou para eles. O certo é que – pelos arquivos da The Intercept – ficou claro que a notícia de Moro no Ministério da Justiça caiu como uma bomba e causou enorme rebuliço entre procuradores do Ministério Público Federal, inclusive ligados diretamente à operação Lava Jato, com quem o ex-juiz tocava de ouvido.

A procuradora Isabel Grobba, no dia 31/10/2018, estava indignada com Moro: “É o fim se encontrar com Bolsonaro e semana que vem interrogar o Lula”.

A sua colega de MPF Laura Tessler, à beira de um ataque de nervos, escreveu: “Pelo amor de Deus!!! Alguém fala pro Moro para não se encontrar com Bolsonaro!!!”. Laura é a procuradora cuja substituição foi “sugerida” por Moro (quando era juiz) ao coordenador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, porque era fraca na inquisição de testemunhas.

Monique Cheker, procuradora que não é da Lava Jato, em 01/11/2018, é incisiva: “(Moro) viola sempre o sistema acusativo e é tolerado pelos resultados”.

Antônio Carlos Welter, este da Lava Jato, lembra que “um dos fundamentos do pedido feito ao Comitê da ONU para anular o processo de Lula é justamente a falta de parcialidade do juiz”. Ele quis dizer “falta de imparcialidade”. (Se há algo que parece não ter faltado a Moro, no caso, foi parcialidade).

O procurador Alan Mansur, em 28/10/2018 lamenta que “a esposa de Moro comemorando a vitória de Bolsonaro nas redes”. O mesmo Mansur em 01/11/2018 declara: “Sempre ficará o comentário de que Moro fez tudo isso para assumir o poder”.

No “chat”, Janice Ascari completa: “Moro já cumprimentou o eleito. Como perde a chance de ficar de boa, pqp”. Os leitores certamente sabem o que significa o “pqp”. Janice, em 31/10/2018 diz que “Moro se perdeu pela vaidade”. João Carlos de Carvalho Rocha concorda: “Ele se perdeu e pode levar a Lava Jato junto” .

Em 28/10/2018 Luiz Fernando Lessa, que deve ser da capital, aborda o caso pelo lado de um suposto provincianismo do ex-juiz e da mulher: “ Esse povo do interior é muito simplório”.

Outro membro do MPF, na mesma data, José Robalinho Cavalcanti, acha que (a vitória de Bolsonaro) “compromete Moro e muito”.

A fama de Moro, depois de aceitar o ministério e compor a equipe de Bolsonaro, ficou abalada dentro do que é, por assim dizer, a sua própria casa. Os procuradores do MPF acima mencionados não devem ter comparecido às manifestações de domingo.

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