Opinião: Como Hércules, eu vou resistir

simone11052016

Eu andei pelas ruas. Não somente pelas ruas de Porto Alegre. Eu andei muito por aí.

Ao longo dos meus 32 anos, olhando para trás sem a turbidez que sempre me acompanhou quando das minhas memórias, eu enxergo o quão rebelde eu fui, mesmo sem querer.

Recordo-me dos debates entre amigas em meu quarto repleto de papéis rabiscados de qualquer coisa que gritasse a poesia, que apresentasse o pouco do que eu entendia como liberdade, política, filosofia. Eu sinto falta daquela menina sonhadora, mas ela ainda está aqui; a distinção está no acúmulo de frustrações.

Eu vou a restaurantes caros, eu conheço de perto a elite, eu frequentei a periferia, eu converso com mendigos, eu sirvo bêbados em um bar, eu escrevo para quem nem entende o que quero dizer ou se importa com quem eu sou. Eu viajei um pouco, eu falei comigo mesma em inúmeras noites, mirando o céu com uma certeza incorrupta de que eu sequer sabia me definir. Eu ando bastante por aí…

Concomitante a toda essa aventura que é viver, independente da minha saúde mental e/ou física, eu estudei muito, muito mesmo, as pessoas e coisas que me faziam saltar essa veia no pescoço, sabem? Eu percebi o olhar triste de quem esteve em algumas salas comigo. Eu senti a solidão do transeunte, eu li aquele artigo cujo autor teve vergonha, eu observei cada gesto despercebido de quem sequer sabe que estava sendo observado (eu gostaria de lhe dizer o quão interessante você é, mas não iremos mais nos encontrar, és mais um na multidão; nos trens, nos ônibus, no aeroporto, no banco de espera do hospital público).

Contudo, e a grosso modo, eu sei que em 1888 começou-se uma luta para libertar os negros de algo mais pesado do que se pode medir, de uma doença que nos acomete até hoje. Corajosos e justiceiros jogaram um jogo perigoso para dar direito e voz àqueles tão humilhados seres; todos nós devemos isso a eles. Sei que no final do século XIX algumas mulheres tiveram a iniciativa de tornar mais sólido o movimento de luta por mais condições de vida e respeito, e assim ainda caminhamos dentro do ainda tão sem entendimento feminismo; palmas para elas. Tenho ciência de que em 1963 foi organizado um plebiscito para definir entre o parlamentarismo e o presidencialismo, e nós vencemos, no entanto, a democracia durou pouco devido ao golpe de 1964, e o governo do atual presidente foi destruído e os militares tomam o poder. Pessoas resistiram, mais uma vez os corajosos, chamados de loucos. Eles apanharam e morreram para que hoje pudéssemos escolher um representante e inclusive destituí-lo.

Conhecendo-me, eu diria que estaria presente em todos estes manifestos assim como presente me faço nos atuais. Sempre na luta pela justiça, democracia, liberdade e na defesa dos menos favorecidos financeira e amorosamente (sim, o amor é peça fundamental para a empatia e a gentileza. Só reproduzimos o que aprendemos).

Embora estes heróis já tenham feito muito pela evolução social, ainda temos pautas como veganismo e sexualidade atravancados.

Neste momento emblemático da história, quero ressaltar minha admiração a estes tantos “desconhecidos” que fazem de nossa sociedade hoje um caloroso debate de ideias e diversidade. E isso inclui a política de esquerda. Não esqueçam, amantes da revolução, ainda há muito pelo que lutar, apesar da rebeldia ter tido de ser polida.

Resistamos ao retrocesso.