“ELES SABIAM DE TUDO!”: Vice-prefeita e cúpula do partido progressista sabiam de tudo, garantem acusadores de Jancke

A comissão processante instaurada contra Celso Jancke, que tem como presidente Pedro Bueno (PT), relator Ivo Lech (PMDB) e revisor Aloísio Bamberg (PPL), realizou sua primeira sessão na sexta-feira, 29 de maio. Com início às 9 horas e recesso por volta das 13h30min, a comissão ouviu as testemunhas acusadoras que reafirmaram as acusações contra o parlamentar, as de defesa e o próprio Celso na parte da tarde. Jancke negou as acusações e se emocionou em alguns momentos. Garantiu que nunca recebeu repasses dos assessores e assegurou que o depósito em sua conta foi para saldar dívidas anteriores.

A promessa não cumprida

Beth Colombo. Foto: Divulgação Prefeitura
Beth Colombo. Foto: Divulgação Prefeitura

“Francisco Biazus, Airton Souza e Beth Colombo sabiam de tudo o que eu afirmava”. A frase foi protagonizada por Maria Inês Urbano, acusadora no processo contra Celso Jancke (PP). Segundo a depoente, a vice-prefeita do município de Canoas, Beth Colombo, disse que a mesma os colocasse na Justiça, pois de nada adiantaria.

Inês testemunhou ainda que Claudio Saldanha era o responsável por recolher o dinheiro dos servidores para repassar ao vereador. Por vezes, a troca era marcada no Via Sonepar, onde deixavam o dinheiro para que Claudio Saldanha pudesse passar para recolher. Segundo ela, a negociação se deu antes e depois de Celso assumir como vereador na Casa. A mesma afirmou que um cargo remunerado em R$ 4 mil lhe foi prometido quando o parlamentar, acompanhado de “Marquinhos”, foi até sua casa. “Eu te dou a diferença mensalmente” disse ele a ela. A mesma se demitiu alegando não receber o valor inteiro e, pouco depois, foi trabalhar para o Executivo ganhando pouco mais de R$ 3 mil.

Depoimento de Maria Inês Urbano. Foto: Bruno Lara/OT
Depoimento de Maria Inês Urbano. Foto: Bruno Lara/OT

A acusadora enviou e-mail ao parlamentar, lido por seu advogado Nedy de Vargas, antes defensor do vereador Francisco da Mensagem (PSB), inocentado na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). “O senhor não tem palavra, está fazendo o mesmo que os políticos corruptos”, dizia ela o ameaçando se mostrasse a correspondência eletrônica para alguém, postaria na rede social Facebook e chamaria o repórter Giovane Grizotti (RBS) para prejudicá-lo. A depoente informou que perguntou ao presidente do Partido Progressista (PP) sobre a prática e o mesmo informou que “o cargo era do Celso”.

O chefe de gabinete que nunca trabalhou com política
O depoimento de Marcos Vinicius dos Santos foi o mais contundente. Informou que não quis repassar o dinheiro para o arrecadador, Claudio Saldanha, e que o fazia em mãos para Jancke. “O vereador estava sentado junto comigo e foi meu avalista”, afirmou sobre o empréstimo que precisou contrair no valor de R$ 77,9 mil.

A defesa questionou que Marcos deu dois depoimentos ao Ministério Público (MP), mas o mesmo defendeu que uma reunião com os assessores e o vereador ocorreu dias antes na sede do Partido Progressista onde foi pressionado e coagido a não dizer a verdade sobre os repasses. “Se a gente dissesse a verdade ficaria ruim para a gente”, afirmou. Marcos afirmou que se submeteu a prática em função da carreira de músico.

Vinicius fez o jingle de campanha de Celso Jancke e afirmou não ganhar nada durante a campanha eleitoral. Para ele, foi uma surpresa ser chefe de gabinete em função de nunca ter trabalhado com a política e confessou que está sendo constantemente cobrado pelo banco. Ainda segundo ele, Jancke queria rebaixar seu cargo para colocar o presidente do PP de Canoas, Francisco Biazus, como chefe de gabinete. “Pediu mais dinheiro. Se aceitasse trabalharia só para pagar ele”, concluiu.
A gravação que circulou em rede nacional foi feita por ele na casa do vereador. O argumento da defesa de que haviam cortes foi obstruído por Marcos que afirmou que a ambientação, carros, sons de fundo, não permitiam cortes.
O advogado Nedy por vezes afirmou que este estava na condição de suposta vítima e, com postura firme, afirmou que o mesmo estava ali para responder o que era questionado. O presidente da Comissão Processante (CP), Pedro Bueno (PT), aceitou o argumento de que a vítima deveria responder as perguntas, mas por vezes interrompeu de maneira enérgica os discursos da defesa.

O advogado continuou a provocação registrando homenagem ao presidente e ao relator, Ivo Lech (PMDB). “Acho que é mundial o entendimento de que quem fala a verdade uma vez e falta em outra é mentiroso”, salienta. “O senhor vai me difamar? Eu não vou aceitar isso”, respondeu Marcos, informando que mentiu no primeiro depoimento ao Ministério Público (MP) por ser coagido em reunião na sede do PP. “No primeiro menti por ser coagido. Eu estava coagido. Todos estavam. Estava adquirindo depressão. Resolvi voltar e falar a verdade”, concluiu o músico.

Marcos Vinicius /, ex-chefe de gabinete de Celso Jancke (PP). Foto: Bruno Lara/OT
Marcos Vinicius /, ex-chefe de gabinete de Celso Jancke (PP). Foto: Bruno Lara/OT

Marcos informou que o repasse era marcado em horários e lugares como em frente ao banco ou em uma esquina. Sobre Beth Colombo e Francisco Biazus saberem da prática, afirmou: “Acredito que sabiam”. Questionado pela defesa sobre a prova que possuía, respondeu que o vídeo, de duas horas, veiculado em rede nacional, que gravou escondido, era sua prova.

“Eu estava apavorado”, continuou. “Faziam pressão. O Celso pedindo metade de tudo, rebaixando cargo de um cara estudando no ano do seu casamento”, complementou. Vinicius negou receber empréstimo por parte do legislador para comprar equipamentos para sua banda ou para realizar obras em casa.

Atrapalhada, a defesa foi enfática ao perguntar se o mesmo havia comprado um automóvel errando por três vezes a marca do mesmo. “Comprei um Celta vermelho, duas portas, sem ar condicionado. Além desta dívida tenho dívida na faculdade”, respondeu ele, corroborando que se não pagasse os R$ 3 mil da faculdade teria de trancá-la no ano de sua formatura.

Em outra tentativa de prensar o acusador, a defesa questionou: “Mesmo com as dívidas, se demitiu?”, questionou. “Não, eu fui demitido”, respondeu Marcos, levando o advogado a se desculpar no Plenário em função da pergunta equivocada.

“Beth sabia”
Após a liberaração por parte do presidente da comissão da depoente Bárbara Barbosa do compromisso de falar a verdade, assim como os anteriores, por possuir interesse no resultado do julgamento, o relator Ivo Lech protagonizou a frase “A senhora não responde a este relator, mas a cidade de Canoas”. Feito isto, Barbara contou que conversou com Celso e com Beth que, no dia em que Júlio Barbosa assumisse a função de subprefeito, teria de sair do Executivo em função da Lei de nepotismo. Dado isto, foi para o gabinete do vereador Celso Jancke. Lembra que saiu do Executivo no dia em que o prefeito Jairo Jorge (PT) fez a foto oficial com o secretariado.
Em seu depoimento também citou os irmãos Paulo e Claudio Saldanha. “Eles são irmãos. Paulo repassava para o Claudio. Às vezes repassava para o Paulo”, afirmou. Segundo ela, os saques eram feitos no Banrisul da avenida Santos Ferreira e que a primeira vez foi acompanhada de Paulo. Depois deste episódio começou a sacar na agência do centro e repassava o dinheiro.
Em entrevista ao jornal O Timoneiro, afirmou que tudo na vida é aprendizado. “Tenho 25 anos e estar passando por essa situação é bem delicado, mas a gente tem que saber tirar proveito de tudo na questão de aprendizado”.

Bárbara Barbosa Processante. Foto: Bruno Lara/OT
Bárbara Barbosa Processante. Foto: Bruno Lara/OT

Barbara afirmou achar justo o repasse por não ter participado da campanha. “Quando acertamos, ele falou do repasse”, salientou. Segundo ela, Celso pediu para não contar aos outros que a mesma recebia o salário integral. Em determinado momento da sessão virou para o legislador e comentou: “O senhor sabe que eu sai de bem”. Em resposta, o vereador consentiu com a cabeça. Barbara confirmou reunião entre assessores e Celso na sede do PP para negar os repasses no MP. “O partido sabia. O presidente do partido sabia e a Beth Colombo sabia do repasse e não tomaram nenhuma atitude”, afirmou também.

“Todos os vereadores fazem isso”

Franklin Silva de Vargas na comissão processante. Foto: Bruno Lara/OT
Franklin Silva de Vargas na comissão processante. Foto: Bruno Lara/OT

Em entrevista a equipe presente de O Timoneiro, Franklin Silva de Vargas desabafou que espera que os colegas vereadores de Celso tenham o senso de justiça e votem pela cassação. “O cara é um corrupto e não tem o que fazer. O processo de onze volumes do Ministério Público prova e mais a palavra de todas as testemunhas que estão falando provam que ele é corrupto”, salientou. Questionado sobre o motivo de denunciar, afirmou que é um pontapé inicial para uma nova política. “Para tentar o início de uma nova política. Para tentar uma reformulação e os políticos terem consciência que eles não são imunes a tudo. Hoje eles acham que são impunes a qualquer coisa. Que nada vai acontecer com eles e podem fazer o que quiser. Tem que ter um início para mudar isso”, conclui.
Em seu depoimento, Franklin afirmou que não compareceu na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) por estar fora da cidade. O mesmo afirmou que trabalhou de quatro a cinco meses no gabinete e que o vereador realizava débitos em sua conta, argumentando que todos os vereadores fazem o mesmo. Disse que Celso afirmava a ele que era o que mais pagava na Casa.“Eu sou o que mais paga aqui dentro dessa Câmara. Todos os vereadores fazem isso”.
Segundo ele, Claudio administrava o dinheiro, “era o arrecadador”, “Botava o dinheiro no bolso”. Ele também fazia os acertos com gráficas, por exemplo. Alegou que passava todos os valores ao próprio parlamentar. “Os assessores estavam nomeados, mas não tinham conhecimento para isto”, afirmou embasando ainda mais a tese de que Marcos, que nunca trabalhou no meio, fora nomeado chefe de gabinete sem conhecimento para o posto.
O partido sabia, também afirmou Franklin. “Beth Colombo sabia, tem ligações minhas de uma hora com o Chico”, afirmou. “Quando sai do gabinete nenhum dos dois se envolveu. Acredito que sabiam de tudo”, conclui. Franklin afirmou que Celso e Claudio são amigos de anos, desde a comunidade luterana do bairro Niterói. Disse que Claudio recebia o dinheiro “às claras”, “ia ali (na Câmara) cobrar”, informou ainda que nunca viu repassando o dinheiro para Jancke.
O advogado de defesa, Nedy, registrou que conhece o depoente desde criança e que o mesmo foi assessor dos legisladores petistas Cebola, Nelsinho Metalúrgico e do atual presidente da Câmara, Paulo Ritter. A vítima afirmou que para estes nunca fez empréstimos e que o funcionário do gabinete de Celso “não tinha conhecimento por ser músico” e não desempenhando a função de maneira produtiva.

Um dos possíveis operadores foi ouvido
Por solicitação insistente da defesa e por estar presente nas dependências da Casa no momento da sessão, Paulo Saldanha, citado pelas testemunhos, foi chamado para depor. Saldanha tem cargo de Assessor Parlamentar I, amigo e funcionário de Jancke. Assegurou desconhecer plenamente os atos que é acusado. “Nunca, nunca, nunca”. Expressou surpresa ao afirmar que não estava sabendo dos repasses. “Eu não to sabendo de nada. Trabalho com o Celso desde o princípio”, conclui. O mesmo afirmou que nunca pegou “nenhum centavo”. Questionado sobre as visitas à Casa Legislativa com o irmão, afirmou que se deu em função de um acidente que havia sofrido e que as denúncias de que o irmão fazia a coleta dos repasses era mentirosa.

Testemunhas da defesa

Vereador Celso Jancke enfrenta comissão processante e pode perder mandato, Foto: Bruno Lara/OT
Vereador Celso Jancke enfrenta comissão processante e pode perder mandato, Foto: Bruno Lara/OT

O filho do parlamentar, Matheus Jancke, se fez presente, mas foi dispensado pela defesa.
Anete Teixeira, atual assessora de Celso Jancke, negou conhecer Alvino, figura que recebeu um montante de R$ 20 mil na sua conta, segundo ela, para saldar dívidas de seu pai. Quando percebido o erro de ordem, o relator parou de perguntar e o advogado de defesa assumiu os questionamentos. Segundo ela, ouviam-se comentários que Marcos comprou equipamentos para sua banda e reformou a casa enquanto chefe de gabinete. Afirmou ainda que o mesmo não cumpria expediente por tocar e cumprir atividades no colégio Concórdia. A testemunha foi a única a negar reunião com os assessores para combinar o depoimento ao MP, ela faz a parte social, não ficando dentro do gabinete, mas foi clara ao afirmar que nunca repassou nada ao vereador e que Claudio nunca lhe acompanhara ao banco, argumento questionado pela mesa em função das fotos de campanas policiais apresentadas pelo Ministério Público. Anete afirmou que a vice-prefeita e seu cunhado, presidente do partido progressista, não sabiam de nada.
Luis Carlos Moreira de Freitas, funcionário do Executivo, afirmou que convivia no gabinete, em reuniões do partido e que não reconheceu a voz de Jancke na gravação.
Liziane Bierhals, atual assessora parlamentar negou tudo em menos de cinco minutos de depoimento.
Márcia Regina da Costa, assessora desde outubro do ano passado, também negou tudo. Segundo ela, o gabinete não fala disso e que ninguém repassa verba.
O segurança Alex da Silveira afirmou que conhece Celso desde que seus filhos, levados pelo vereador, foram para a escola Concórdia.
A funcionária pública Maria Ivani Damasceno Aires, amiga de Jancke, informou que trabalhou na campanha, que conhece o vereador desde 2006, que tem uma filha matriculada no Concórdia e que a colocou lá por pesquisar escolas e chegar à conclusão de que esta, em função do diretor, era a melhor.

Presidente elogiou a sessão
Em conversa com a equipe presente na sessão, o presidente da Comissão Processante, Pedro Bueno (PT) foi enfático ao afirmar que a obrigação da comissão é dar continuidade ao processo com transparência. “Essa é a obrigação dessa comissão e nós vamos fazer desta maneira, não tem outra forma”, salientou.
Bueno classificou a sessão como positiva. “Acho que a comissão, as testemunhas que foram ouvidas, a atuação do relator (Ivo Lech) e do revisor (Aloísio Bamberg) tiveram atuação, no meu ponto de vista, como presidente da comissão, muito boa”. Sobre o ruído com o advogado de defesa declarou que “a defesa tem a sua atuação, o seu método, a sua veemência, e o Dr. Nedy, nós sabemos da qualidade dele, mas essa comissão se portou a conduzir os trabalhos para que realmente nós tenhamos o melhor resultado”, afirmou.
Para salientar a posição neutralidade, afirmou que a Processante não tem uma posição de cassação, mas sim de buscar a verdade. “Aqui nós não temos posição de condenação, nós temos uma posição de buscar os fatos para caçar ou não o vereador Celso”, conclui. A sessão de julgamento, onde será apresentado o relatório e colocado em votação pelo Plenário deve ocorrer no dia 3 de julho.
A defesa tem de 8 a 12 de junho para pedir a impugnação do material. O prazo para apresentação das alegações finais ficou de 15 a 19 de junho e a degravação da audiência fica à disposição a partir de 5 de junho.

Contrapontos

Francisco Biazus
Por telefone, o presidente do Partido Progressista, Francisco Biazus, afirmou não saber de nada. “As coisas acontecem, como eu, presidente do partido, vou ficar sabendo? Não existe isso. Eu sei o que saiu na imprensa”, salientou. Francisco alega saber o que a imprensa está veiculando. “Sei tanto quanto as outras pessoas que acompanharam”, conclui.

Beth Colombo
Foi procurada através da assessoria de imprensa da Prefeitura, que disse que não responderia por não se tratar de assunto institucional. Durante toda a tarde de quarta-feira, 3, a reportagem tentou contato com a vice-prefeita sem sucesso.

Airton Souza
O vereador mais votado no último pleito, Airton Souza, afirmou em entrevista pelo telefone que não foi procurado por ninguém sobre as práticas que aconteciam no gabinete e desconhece se as mesmas aconteciam de fato. “Eu não sabia. Não sei nem se existia a prática realmente. Nunca ninguém me procurou”, concluiu.

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