Tito Guarniere: “Ex-juiz Sérgio Moro foi da ascensão à queda”

O ministro Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública) comparece a sessão conjunta de 3 comissões da Câmara para explicar o caso conhecido como Vaza Jato, envolvendo as mensagens que teria trocado com o procurador Deltan Dallagnol reveladas pelo site The Intercept. Brasilia, 02-07-2019. Foto: Sérgio Lima/PODER 360

Tito Guarniere

ASCENSÃO E QUEDA 

O ex-juiz Sérgio Moro foi da ascensão à queda em pouco tempo. Mas não pode culpar ninguém, a não ser ele mesmo. Descobriu tarde demais que a glória é efêmera, que os aplausos de hoje podem se tornar os apupos de amanhã. Duvido que Moro, hoje em dia, ande com a mesma pose nos lugares públicos, e receba os mesmos aplausos de quando viajava em aviões de carreira e frequentava bons restaurantes. 

O azar de Moro foram as gravações da The Intercept Brasil. Ah, mas eram gravações ilegais! Eram. Mas de forma torta se escrevem, às vezes, linhas certas. Não há como tapar os ouvidos, fechar os olhos, e ignorar as maquinações sombrias daqueles personagens conspícuos – o juiz Moro, policiais federais e procuradores da Lava Jato. 

Até então, deu-se de barato que ele tenha liberado para a mídia um telefonema grampeado entre Lula e Dilma, que detonou uma manobra astuciosa do governo do PT: fazer Lula ministro da Casa Civil, dando-lhe foro privilegiado e parando a ação penal que corria a todo vapor na Vara de Justiça Federal de Curitiba, em que Moro era o juiz. Tudo estaria bem não fosse um pequeno detalhe: o grampo da ligação entre Lula e Dilma era totalmente ilegal! 

Igualmente, deixou-se para lá que, em momentos decisivos de duas eleições presidenciais, Moro autorizou a divulgação de trechos selecionados da delação premiada do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, em 2014, e depois do ex-ministro Palocci, em 2018, ambas detonando o PT, acusando o partido do recebimento sistemático de propinas – notórias tentativas de influir no resultado eleitoral. 

Não foi possível, afinal, ficar entre quatro paredes, depois da Intercept Brasil, as combinações espúrias, os conchavos ilegais entre o então juiz Moro e membros eminentes do Ministério Público da Lava Jato, que resultaram na ação frenética de obter a condenação de Lula, e desse modo afastá-lo da sucessão presidencial em 2018. 

O primeiro dever do juiz é a imparcialidade: como aceitar que ele faça combinações com a autoridade policial, com o Ministério Público? Fazer arranjos com o Ministério Público, como fez Moro sem medo de ser feliz, é a mesma coisa que fazer arranjos com os advogados de defesa. 

Poderia terminar aí, com as queixas normais de quem foi prejudicado, como Lula. Mas aceitar o convite de Bolsonaro para ocupar o Ministério da Justiça, foi como uma confissão de culpa. Como alguém que chegou tão alto na avaliação dos seus contemporâneos, pode cometer um erro dessa magnitude? 

Daí em diante, tudo deu errado. No Ministério da Justiça, desconhecendo os meandros da política e o funcionamento dos Poderes – era um especialista da província, dos feitos exíguos de um juizado – saiu humilhado, posto na rua por um governante rude e impolido. 

Agora, Moro trabalha para a empresa de consultoria Alvarez & Marsal, que faz o “compliance” da empreiteira Odebrecht, cuja má fama ele ajudou a construir.  

Moro foi declarado suspeito pelo Supremo Tribunal Federal, nos processos em que condenou Lula. Não é algo de que ele possa se orgulhar. Ser um juiz severo era pouco para quem queria ser o salvador da pátria. 

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