Fabiano Vencato: “A relação homem e cavalo”

Fabiano

Fabiano Vencato – Coluna Tradicionalista

A RELAÇÃO HOMEM CAVALO

O cavalo é o preparador inconsciente do nosso povo… Potro bravio, arrancando às manadas, ele passou a ser, depois de domado, o auxiliar eficaz e o impulsor admirável daquele que se fez seu dono. É inegável a ação sugestiva que ele exerce sobre o gaúcho. Um gaúcho a cavalo tem o ânimo disposto, se encoraja e se envaidece, sentindo o influxo da sua atitude. Um pingo bom, vivo, garboso, bem apeirado, atirando o freio, transmite ao ginete o seu ardor, alevanta os seus brios e torna-o capaz de atos de audácia e temeridade, duplicam-se o amor próprio e o valor, e representa, em suas mãos um poder que ele domina e dirige a seu bel prazer. Ele é o “Monarca das Coxilhas”! Nas lendas, nos improvisos, nos descantos e desafios dos trovadores anônimos, assim como na poesia glorificadora das nossas façanhas guerreiras; onde quer, enfim, que fale o sentimento de um verdadeiro rio-grandense, ali encontraremos sempre a singela mas elevada glorificação do cavalo. Não há mesmo uma só página da nossa literatura local, que não o eleve como um colaborador, como um auxiliar decidido e decisivo de quem o possui. Ele é uma “personagem” de tanta ação na vida do pampa como o seu próprio dono. “Um gaúcho de alma não abandona o seu cavalo e quando fala com ele é como se falasse com uma pessoa”. E quem quer que escrevesse uma página sobre aspectos, hábitos e costumes da gaúcho rio-grandense, não o esqueceu certamente colocando por vezes no primeiro plano aquele que é um fator da nossa riqueza material e da nossa riqueza moral. Não há negar também a significativa contribuição de guerra em todas as pelejas que imemoravelmente, se vêm deflagrando no rincão natal com essa rara insistência dos sacrifícios periódicos. É sabida a rapidez com que o gaúcho apela para o seu poderoso e dedicado auxiliar. Ao primeiro sinal da luta, ao primeiro toque de reunir, o cavalo, quer seja pingo de trato, recém-enfrenado ou mesmo mísero matungo de campo pobre, aponta no tabuleiro das coxilhas, formando os esquadrões dos combatentes, as grandes massas em movimento, logo depois arremessadas contra outros tantos valentes peleadores em guarda. Fora, entretanto, esse ambiente, não menos intensa é a sua lição, o seu contato, já não mais com o guerreiro guapo, mas como campeiro sacudido e desempenhado das velhas lides campeiras. É de vê-lo nos rudes trabalhos das estâncias, na faceirice dos passeios, nas trotadas e agachadas estrada em fora, nas carreiras ou no disparo das Califórnia. Olhado e admirado nessa função social do meio, o cavalo faz é um verdadeiro prodígio: parece que adquiriu um lúcido entendimento do mistério para o qual foi escolhido e ensinado; adivinha o pensamento do seu ginete; traz na sua faceirice, no garbo do seu andar e atitude. Em particular o cavalo crioulo é fruto de seleção natural, uma raça descrita como rústica e multifuncional. Rústica porque encara todo tipo de terreno e enfrenta qualquer intempérie. Seja nos pampas, com as suas planícies sem fim, por onde corre o minuano; seja nos charcos ribeirinhos ou nas bordas da imensa Lagoa dos Patos. Seja no planalto, onde sopram os ventos uivantes da Serra Gaúcha, no verão de sol inclemente, de 40 graus ou abaixo de zero, no inverno tenebroso, na secura das pedras, no chão pantanoso… O crioulo é criatura valente. Atravessa a vida sobrando saúde. É uma raça essencialmente de lida. Das que foram desenvolvidas no continente sul americano é a mais talhada para o serviço com gado. Com o cavalo crioulo, no sul do Brasil, floresceu na verdade, uma cultura crioula, que vai além da criação propriamente. Abrange a linguagem, a culinária, o vestuário. Quem não está acostumado com a etiqueta do gaúcho, ao ver um ginete, que é como se diz peão na região, pode até pensar que ele está indo para uma festa, uma apresentação especial. Porém para nós gaúchos o simples fato de pilchar-se para ter um dia ao lado do melhor amigo (o cavalo) já é uma grande festa.  

 

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