Olegar Lopes: “Couro e charque”


Olegar Lopes – Agenda Tradicionalista
Couro e charque

Com o pensamento voltado para mudar de assunto, mas sem encontrar um assunto – desculpe a redundância – eis que a legenda de uma foto antiga no Face iluminou minha mente. A foto da estação férrea de Cacequi cuja legenda explicativa referia-se que por ali passava centenas de passageiros por dia e que o restaurante da estação servia bifes de charque. Pensei: encontrei o assunto que procurava. Mas porque o couro? É porque o couro foi o primeiro produto originário do pampa, o charque veio mais tarde por volta de 1730, ainda apenas como meio de conservação das sobras de carne que eram comercializadas em Laguna, maior centro produtor e exportador de charque.

No início da formação do Rio Grande do Sul os changadores sem lei que vagavam pelos campos do pampa atacavam o gado chimarrão (gado de criação extensiva, sem dono) que era carneado e aproveitado apenas o couro, a carne era abandonada nos campos. Por volta do início do século XVIII, quando começa a exploração do ouro no centro do Brasil, Laguna se torna o grande centro produtor e exportador de charque. Antes disso surgiram no nordeste brasileiro a carne-seca, a carne de sol e a carne de vento, sendo o Ceará e o Rio Grande do Norte os principais produtores que, além da exportação, abasteciam os engenhos da Bahia e Pernambuco. A produção de charque nordestino durou pouco, contribuindo indiretamente para o crescimento do charque rio-grandense.

Esse é um capitulo que considero muito importante – principalmente para pessoas como eu que desconhecia esse fato. “As modificações climáticas surgidas na região, com o aparecimento das secas periódicas, a partir de 1770, trouxeram a redução dos rebanhos e dificuldades para a produção de carne-seca. Foi quando o cidadão português, João Pinto Martins, que estava estabelecido em Santa Cruz do Arati, como produtor de carne-seca, transferiu-se para o Rio Grande do Sul, em 1779, fixando-se às margens do Rio Pelotas”.

O charque já era produzido no Rio Grande do Sul antes da chegada do português José Pinto. Os jesuítas, os tropeiros, os changadores, os estancieiros, todos faziam charque como processo de conservação do que sobrava das carneações, tudo em pequena escala, sem fim comercial. Com a chegada de José Pinto, ao instalar-se às margens do rio Pelotas fez com que em pouco tempo outras charqueadas viessem se estabelecer ao longo rio Pelotas e do arroio Santa Barbara, formando ali o maior núcleo saladeril do Rio Grande do Sul.

Embora José Pinto Martins não seja considerado o pioneiro da indústria do charque rio-grandense, teve o mérito de descobrir o local ideal para localização das charqueadas, vindo a consolidar e impulsionar a atividade saladeril ao ponto de tornar o charque o produto comercial mais importante do Rio Grande do Sul por muitos anos. Além disso, o charque nos deixou como legado a cidade de Pelotas, a mais importante do sul do estado.

Fonte: Evolução das Charqueadas Rio-grandenses, livro de Alvarino da Fontoura Marques.