Tito Guarniere: “Que privilégio viver na era da tecnologia”


Tito Guarniere
Boa notícia

Que há muitos males que nos afetam ainda, não há dúvida. Mas um olhar mais agudo permite dizer que é um privilégio viver no tempo presente, comparado com épocas passadas.

Nunca a expectativa de vida humana foi tão elevada. Nunca o homem dispôs de tantos medicamentos eficientes para se libertar da dor e do sofrimento. O homem jamais foi capaz de produzir tantos alimentos quanto agora. A miséria, a fome, as carências de toda ordem que nos acometiam tempos atrás, são hoje em dia incomparavelmente menores.

Na proporção da população mundial de cada época, nunca morreram tão poucas pessoas em guerras distantes, ou assassinadas, ou por causa de epidemias e doenças. As gripes suína e aviária, deste século, provocaram juntas menos de 18 mil mortes. Número alarmante, mas quase inexpressivo perto dos 100 milhões de mortos na gripe espanhola, cem anos atrás. 

A pior praga recente da humanidade, a AIDS, hoje em dia é uma doença (quase) sob controle, por causa de campanhas públicas de prevenção e de remédios de última geração.

Em tempo algum o homem viajou tanto. Milhões de pessoas se deslocam todos os dias, em ondas de imigração, e de simples viagens de ida e retorno, conhecendo novos lugares, trocando experiências, comprando e vendendo mercadorias e serviços.

A comunicação humana vive uma revolução por semana. Um berbere do deserto marroquino pode ligar para o parente que mora em um “banlieu” de Paris, dar notícias da família, e perguntar como está o tempo. Uma mãe ansiosa do interior de Santa Catarina fala todos os dias com o filho que está viajando pela primeira vez à Europa. Tudo pelo WhatsApp, de graça, sem pressa de desligar.

Um africano da região subsaariana acumula, em um aparelho celular de U$ 50 dólares, telefone, rádio, relógio, gravador, máquina fotográfica, e aplicativos com GPS, previsão de tempo na região e no mundo, e uma “discoteca” de 20 mil músicas, que ele ouve na noite fria da região inóspita. Em tempos bem próximos só os ricos dispunham de toda essa parafernália.

Não é o paraíso, claro. Há, ainda, áreas residuais de fome e miséria absoluta, guerras localizadas, tribos em conflito sangrento, ditaduras cruéis, assassinatos em massa (só no Brasil são mais de 60 mil por ano), concentração de renda e riqueza, deterioração ambiental, e tanto mais. Mas o fato continua de pé: o planeta nunca foi tão bom de habitar.

Nos últimos 40 anos aumentou exponencialmente a produção de bens e serviços. Graças à revolução do conhecimento e às inovações tecnológicas, em todas as áreas, milhões de pessoas tiveram acesso a bens essenciais da vida. Tudo rolou na época de ouro do capitalismo, e em grande parte por causa dele, de sua extraordinária performance na produção de bens e serviços, da dinâmica vertiginosa do comércio mundial, da velocidade e eficiência das novas logísticas.

Há colossais desafios a vencer. Parece justo esperar, entretanto, que a mudança profunda – qualidade e quantidade – na produção econômica do mundo sirva ao propósito de permitir à humanidade o acesso mais amplo aos bens do progresso e da civilização.

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