Opinião: Por uma Internet sem cadáveres

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Lembro que quando o Facebook ganhou força no Brasil, muitas pessoas reclamavam do excesso de imagens de animais feridos ou mortos. “Quem postar foto de bicho morto eu vou excluir”, diziam milhares de usuários, sem imaginar que a coisa pioraria muito nos anos seguintes. Agora vemos gente morta o tempo todo, tanto em grupos quanto compartilhadas publicamente nas timelines.

E não é uma questão de não existir freio e nem código de ética nas redes sociais. O Facebook e o Whatsapp são apenas ferramentas que expõem a falta de ética de quem vaza fotos de cadáveres, sem o mínimo respeito com a vítima ou com a sua família, e também de quem curte, comenta e compartilha este tipo de atrocidade.

Em 2012 milhares de canoenses ficaram chocados quando fotos de cabeças decepadas de gatos foram expostas por alunos do Colégio Concórdia no Facebook.  Vejo hoje algumas das mesmas pessoas que se sentiram ultrajadas pelas imagens dos animais mortos publicando em grupos como o Fala, Canoas ou o Mathias Velho – Polícia 24 Horas imagens de canoenses mortos a tiros, a facadas, e de formas ainda mais bárbaras. Cadáveres dilacerados de seres humanos passaram a ser considerados normais pelos mesmos que se horrorizavam com imagens de animais mortos. Será que estamos vendo o que sobrava da ética da sociedade escorrendo pelo ralo? Infelizmente, na minha opinião, não é o caso. A vontade de ver o semelhante reduzido a restos é muito mais antiga do que o século 21.

Quem viveu a década de 1990 e não lembra das imagens dos corpos dos Mamonas Assassinas que a revista Manchete publicou de forma irresponsável? Na época estas imagens acabaram sendo reproduzidas de forma pirata e eram vendidas em camelôs. No entanto, a rede social permitiu a potencialização desta vontade. Agora não é mais só a foto do ídolo morto que as pessoas querem ver, elas estão viciando em ver os restos do traficante, do policial, do vizinho, do pai de família… qualquer um, desde que esteja bastante dilacerado.

Torço por uma Internet sem cadáveres, sejam eles de bicho, de gente, de mocinho ou de bandido. Sei que as próprias redes sociais podem apurar os filtros e que, em breve, estas atrocidades podem ser banidas de alguma forma. Mas o que eu queria mesmo era que o bom senso imperasse e que as pessoas preferissem novamente cuidar dos vivos e deixassem os mortos e suas famílias em paz.

 

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