Opinião: Os defensores da moral

brunao

Sempre fui do tipo medroso. Na infância, temia tudo.

Por conta disso, não entrava em muitas brincadeiras, ficava de fora. Nunca tive o sentimento do “não vai dar em nada”. Quando era menor, acompanhava os amigos que se divertiam em brincadeiras que nunca entendi muito bem.

Quem nunca tocou a campainha de alguém, um dia, e depois correu?

Cresci e isso confirmou o que eu achava. Isso incomoda. Hoje é a minha campainha que toca e, quando largo tudo e vou olhar, não há ninguém lá.

Não é uma questão punitiva. Ninguém deveria ir preso por tocar a campainha e correr. Eu, no entanto, levava comigo o sentimento – medroso – de que algo aconteceria comigo e com aqueles próximos a mim se fizesse isso.

Lembro bem de um dia em específico. O episódio até hoje é motivo de chacota. Em uma brincadeira, murchamos pneu de um carro estacionado na rua. Na hora parecia engraçado. Talvez até tenha sido. Até a hora que o dono desce a lomba correndo e a minha casa foi o destino dos fugitivos mirins. Em casa, escondido, chorava. Achava que o dono do carro chamaria o Conselho Tutelar e, naquele mesmo dia, estaria em uma cela, longe dos meus pais e por lá passaria anos. Uma lógica interessante, mas não a dos demais. Os amigos riram, aliás, continuam rindo.

Hoje, conhecendo o sistema, vejo o motivo pelo qual riam. O conselho tutelar é falido. Quando não faltam os agentes, falta estrutura. Quando não falta estrutura administrativa, falta lugar para as crianças e famílias que precisam de ajuda. Uma conta que não fecha. Uma estrutura de importância essencial, que serve para a manutenção da juventude de uma forma civil, mas que não ocorre por não haver independência, por ser, hoje, apenas uma prévia das eleições municipais, que por sinal ocorrem neste ano.

A minha lógica era verdadeira. Era como deveria ser em um sistema de perfeito funcionamento. Aquele jovem que erra deve ser corrigido. Não com o afastamento dos pais – aí eu concordo com a besteira que a juventude não me trazia -, mas com a manutenção dos valores, do que é certo e do que é errado.

Certo e errado. Um limite que parece não mais existir. Não há proibições, apenas consequências. Os legislativos brasileiros acreditam que tudo o que alguém faz é consequência de algo que aconteceu com ela no passado. Uma conclusão, a meu ver, acertada. O erro está no que é feito para corrigir o seu futuro. Enquanto o poder público continuar a servir como defensor daqueles que erram, ao invés de tentar corrigi-los, haverá sempre mais infratores do que aquele que seguem o correto e, por consequência disso, também crescerá o número de moralizadores, de defensores daquilo que nem eles têm. A moral.

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