Tito Guarniere: “Cancelem o protocolo!”

epa08624889 The President of Brazil Jair Bolsonaro participates in a launching ceremony of the Casa Verde e Amarela Program, at the Palacio do Planalto, in Brasilia, Brazil, 25 August 2020. Bolsonaro, presented on 25 August a new program for the construction of popular homes, which aims to benefit about 1.6 million families in the next two years. EPA/Joedson Alves

Tito Guarniere

CANCELEM O PROTOCOLO! 

Em normais circunstâncias ninguém gosta ou quer proximidade de um sujeito rude, irascível e impulsivo, mal-educado e agressivo. Acho que nem os bolsonaristas gostam – mas eles abrem uma exceção para o seu chefe e ídolo. Bolsonaro é tudo isso e muito mais.

Nunca se sabe o que pode irritá-lo ou levá-lo ao destempero. Munido de um pensamento raso e de interesses vulgares, é uma bomba-relógio sempre prestes a explodir. Nunca é gentil, educado, contido, e nas horas de exaltação sobra até para os seus auxiliares mais próximos. Se é essa a impressão de longe, podem ter certeza que de perto, quando ninguém é normal (segundo Caetano), tudo fica pior.

Vejam Eduardo Pazuello, um militar servil e um ministro da saúde apenas regular. Dias atrás, o Ministério da Saúde divulgou o calendário nacional de vacinação do coronavírus – início marcado para abril de 2021. Mas a programação só previa o uso da vacina de Oxford-Fiocruz, que é a aposta do governo federal. Os secretários da saúde do Brasil inteiro chiaram e com toda a razão – é provável que a vacina chinesa da Sinovac, a ser fabricada pelo Instituto Butantã, de São Paulo, esteja pronta antes, talvez em janeiro de 2021.

Os secretários pediram a inclusão da vacina chinesa no calendário nacional. Pazuello, sensatamente, parece ter visto a mancada e voltou atrás, assinando um protocolo com o Instituto Butantã de compra de 46 milhões da vacina.

Mas havia um problema: o Instituto Butantã, um centro de excelência que produz 70% das vacinas nacionais, pertence ao governo de São Paulo. E o governador de São Paulo, João Doria, é adversário político do presidente.

Quando tudo parecia voltar à normalidade, Bolsonaro recebeu recados hostis dos seguidores nas redes sociais, provavelmente os mais ignorantes, que seria uma traição comprar a vacina comunista. E Bolsonaro, sendo Bolsonaro, que outro não pode ser, baixou a ordem de comando: cancelem o protocolo com o Butantã.

Ele alegou razões de ordem científica para a decisão. Logo ele, que jamais deu a mínima para a ciência, guru negacionista que fez propaganda de uma droga milagrosa para o coronavírus, que não queria o isolamento social, que tem em seu governo a figura exótica de Marcos Pontes, ministro da Ciência e Tecnologia – ainda agora insiste em divulgar a eficácia de um vermífugo (Annita) para tratamento do Covid-19.

O que está por detrás das incongruências, dessas trapalhadas de (des) governo é a eleição de 2022. Como disse o capitão: “Doria quer recuperar o prestígio com a vacina!”. Bem, Doria não é o meu personagem predileto. Mas no caso um valor maior está em jogo: a saúde da população. Tomara que dê certo e não importa a quem isso vai beneficiar politicamente.

Bolsonaro não gosta de sombra, nem de aliados e auxiliares. Ele quer jogar sozinho no tabuleiro da sucessão. Esse é o caminho da perdição – o excesso de autoconfiança, o desvario ambicioso. Mas fiquem tranquilos: ele não irá até o fim empacado no ato insano de vetar a vacina Sinovac-Butantã. Bolsonaro, na hora certa, roerá a corda, voltará atrás e achará uma forma de dizer que a vacina chinesa só existe por causa dele.

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