Tito Guarniere: “O próprio presidente não mostra firmeza na condução de sua principal batalha”


Tito Guarniere

ANDEM UM SINAL!

A equipe de ministros do governo Jair Bolsonaro não é lá essas coisas. No coletivo sofrível, Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, e Vélez Rodríguez, da Educação, dão considerável contribuição para o rebaixamento da média geral. Onde eles se metem, e quando eles abrem a boca, dá rolo. Falta-lhes tirocínio, senso de oportunidade, medida. São apenas dois militantes do baixo clero conservador.

Não é à toa que ambos foram indicados – segundo conta a lenda – pelo ex-astrólogo e filósofo Olavo de Carvalho, o “guru” do governo.  A qualidade de quem indica se mede pela qualidade dos seus indicados.

Não creio que passem de ano.  Se ficar o tempo todo apagando os focos de incêndio que eles ateiam, o governo não terá tempo de se fazer presente onde é preciso e esperado. De todo o modo, Araújo e Vélez Rodríguez são atores coadjuvantes no cenário. Nada conta mais para Bolsonaro do que a reforma da previdência.

O que está ocorrendo, entretanto, é que o próprio presidente não mostra firmeza na condução de sua principal batalha.  Ele parece estar dividido entre o discurso de campanha e a necessidade crucial da reforma. “Promessas de campanha só comprometem quem as recebe” (de Gaulle). Governar é muito chato.

Vejam: em ato público na semana passada, ele declarou textualmente: “Não tenho dúvida de que o Parlamento fará as correções que têm de ser feitas”. Cuma? – seria a pergunta do Didi Mocó. O governo não apresentou o seu projeto de reforma em pompa e circunstância? Que correções são essas que “têm de ser feitas”?  Se há correções à vista, por que não enviar o projeto já com elas incorporadas?

Não posso crer que o presidente não saiba que a declaração é um convite para alterações no texto do projeto. Os ouvidos dos políticos são diferentes e especiais: palavra inteira é entendida pela metade, e meia palavra basta.

Em outro evento foi mais longe: admitiu que o governo está disposto a aceitar a idade mínima de 60 anos de aposentadoria das mulheres – o projeto do governo propõe 62. Ou seja, o governo anunciou a idade mínima de 62, mas era um blefe. E antes de mostrar as cartas quem se apressou a dizer que era um blefe? O próprio presidente! Bolsonaro fez a mesma coisa com o valor do benefício continuado para idosos, adiantando o expediente, de que ele poderá ser maior do que o previsto.

O presidente, que deveria ser o “condottiere” da reforma, no Congresso e na opinião pública, é o primeiro a enfraquecê-la e desfigurá-la.  Assim, até o Gabeira, que diz que Bolsonaro é risonho e brincalhão(!), o Guzzo e a Janaína Paschoal vão acabar abandonando a causa e o navio.

Estou de acordo quando alegam que ainda é cedo para julgar. Mas, por favor, mandem um sinal, ao menos um sinal positivo, de que as coisas vão tomar rumo, e que a mãe de todas as batalhas (do governo), a reforma da previdência, não será um “me engana que eu gosto”. Amor à pátria, hino nacional, essas coisas não fazem diferença para o que de fato é relevante.

Já disseram com razão que a proposta de reforma da previdência é boa, mas o governo é ruim. Esse é o dilema: o que vai prevalecer, as virtudes da proposta ou a ruindade do governo?

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