Fabiano Vencato: “O Rodeio como manifestação cultural”

Fabiano

Fabiano Vencato – Agenda Tradicionalista

O Rodeio como manifestação cultural

A relação do homem com os animais é ancestral e no Rio Grande do Sul adquire contornos diferenciados, pela forte identificação do gaúcho com o campo e suas respectivas lidas. A figura do homem rural no lombo de um cavalo, pastoreando gado ou ovelhas, e na companhia de seu “cusco”, ocupa o imaginário popular e carrega em si forte valor simbólico. Mas não só: essa imagem retrata fielmente a realidade das gerações que nos antecederam e também de atuais. É exatamente assim em muitos recantos do nosso Estado. O peão não laça para se divertir, mas porque é seu trabalho no campo, preservando o jeito herdado dos pais, dos avós, e contribuindo assim para a conservação da memória de nossos usos e costumes, não somente nos livros de história, mas também de maneira vivencial, no dia a dia. Cabe, evidentemente, todo um cuidado e olhar especiais quando colocamos em pauta a realização de rodeios, que são eventos demonstrativos dessas práticas para públicos muitas vezes essencialmente urbanos. Estes eventos estão consolidados no Rio Grande do Sul, com forte argumento econômico e turístico – argumentos, porém, que em hipótese alguma podem estar acima das garantias de bem-estar animal. Nesse sentido, há alguns anos, juntamente com o Ministério Público e com o Conselho Regional de Veterinária, o MTG (Movimento Tradicionalista Gaúcho) auxiliou na elaboração de um documento com diretrizes para o bem-estar animal para antes, durante e após a realização de cada evento. A cartilha elenca o que pode, o que não pode, também as penalidades para quem não cumprir as determinações e apresenta as considerações de entidades protetoras dos animais. Alguns exemplos de determinações: – O transporte dos animais deverá ser realizado em veículos apropriados e as instalações do local devem garantir a integridade física deles durante sua chegada, acomodação e alimentação; – A encilha e demais peças utilizadas nas montarias, bem como as características do arreamento, não poderão causar injúrias ou ferimentos aos animais; – As cintas, as cilhas e as barrigueiras deverão ser confeccionadas em lã natural ou em couro, com dimensões adequadas para garantir o conforto dos animais; – Os laços utilizados deverão ser confeccionados em couro trançado, sendo proibido o ato de soquear o animal laçado; –  É proibido o uso de esporas com rosetas pontiagudas, nazarenas, ou qualquer outro instrumento que cause ferimento nos animais, incluindo aparelhos que provoquem choques elétricos; – Os animais utilizados nos eventos/provas poderão dar no máximo 20 voltas o boi e 30 a novilha, respeitando o descanso de 30 minutos entre as voltas nos lotes de animais; – A cancha deve ser de grama ou areia. Nossas entidades tradicionalistas lutam diariamente e arduamente para que os rodeios crioulos mantenham a autenticidade gaúcha, sem a incorporação de estrangeirismos. O bem-estar animal e a preservação da nossa mais essencial cultura regional dependem de todos os segmentos da sociedade compreenderem que o laço é uma das identidades e personificação do gaúcho como homem campeiro. São estes predicados pessoais que o peão apresenta como herança de tradição nos nossos dias atuais, sejam em atividades cotidianas rurais ou em momentos de lazer. O laço tem sua disseminação em todo o estado sul rio-grandense e até fora dele. É uma ferramenta importante para o resguardo cultural e possui aspecto fundamental na história do campeirismo do nosso estado e na formação dos diversos rodeios e eventos campeiros existentes.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here